Abricó-de-Macaco e suas flores maravilhosas

Abricó de Macaco

Courupita guianensis Aubl. 

              Família Lecythidaceae

 

flor vermelha da família Lecythidaceae mostrando suas estruturas
Flor do abricó de macaco

O abricó-de-macaco (Couroupita guianensis) é uma espécie nativa, desde a Costa Rica, Panamá, Colombia, Venezuela, Guianas e  Brasil (Floresta Amazônica, em vegetação de terra firme). Hoje ela é muito frequente em jardins e na arborização urbana, especialmente na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde foi introduzida pelo paisagista Roberto Burle Marx. Quem passa por essa árvore dificilmente fica indiferente.

Outros nomes populares: castanha-de-macaco, cuia-de-macaco, árvore-de-macaco, cuiarana, amêndoa-dos-andes, macacarecuia, curupita, cannonball tree.

🌸Entendendo a flor do abricó-de-macaco

 

As flores são exuberantes — grandes, vistosas, pétalas carnosas, hermafroditas, perfumadas (cheiro que lembram rosas) — e oferecem pólen e néctar como recursos para os polinizadores. É espetáculo e é estratégia.

tres flores de abricó de macaco
Flores de abricó de macaco 

A flor do abricó-de-macaco é um excelente exemplo de como forma e função caminham juntas na evolução das plantas tropicais.

Ela apresenta simetria bilateral (flor zigomorfa) e uma arquitetura floral altamente especializada, típica da família Lecythidaceae.

perfil de uma flor de abricó de macaco mostrando os estames
Perfil de flor de abricó mostrando o capuz estaminal, os estaminódios e estames funcionais

🔹 Pétalas

As pétalas são grandes, vistosas, carnosas e coloridas, com tons que variam do amarelo ao rosa e vermelho.
Sua função principal é atrair os polinizadores, funcionando como sinal visual à distância.

🔹 Capuz estaminal 

A estrutura em forma de “bolsa” ou “capuz” é formada por estaminódios, ou seja, estames modificados e estéreis.

Esses estaminódios:

  • não produzem pólen funcional,

  • formam franjas chamativas e em movimento

  • atuam como elemento de atração e direcionamento do polinizador,

  • ajudam a controlar a entrada e o posicionamento do visitante floral.

O capuz não participa diretamente da fecundação, mas é essencial para o sucesso do processo reprodutivo.

 

🔹 Estames férteis

Os estames férteis localizam-se no anel superior  da flor, formando um anel estaminal.

Eles são os responsáveis por produzir todo o pólen da flor, incluindo:

  • pólen de recompensa, em maior quantidade, utilizado como alimento pelas abelhas;

  • pólen funcional, com gametas, produzido em menor quantidade e efetivamente envolvido na fecundação.

Ou seja:
👉 os dois tipos de pólen vêm dos estames férteis, não dos estaminódios.

 

🔹 Parte feminina 

O estigma está posicionado de forma estratégica, obrigando o polinizador a encostar cabeça e dorso ao acessar os estames férteis.

Esse contato direcionado garante que:

  • o pólen funcional seja depositado no local correto;

  • ocorra polinização cruzada eficiente.

🐝 Tradução ecológica da flor

A flor do abricó-de-macaco separa funções:

  • estruturas para atração (pétalas e estaminódios),

  • estruturas para alimentação do polinizador (pólen de recompensa),

  • estruturas para reprodução da planta (pólen funcional + estigma).

 

E quem poliniza o abricó de macaco?🤔

 

Entre os visitantes mais importantes estão as abelhas-carpinteiras, em especial Xylocopa brasilianorum. São abelhas robustas, de porte médio a grande (cerca de 20 a 26 mm), integrantes do grupo dos grandes polinizadores.

flor amarela sendo polinizada pela mamangava Xylocopa brasilianorum
Xylocopa brasilianorum – abelha carpinteira

Essas abelhas fortes são extremamente ativas na polinização não só do abricó -de- macaco, mas de diversas espécies vegetais no Brasil — inclusive de culturas agrícolas importantes, como a do maracujá. Trabalho pesado feito por essas mamangavas, bem feito e indispensável.

Essas mamangavas atraídas pelo odor, pela visualização dos estames, entram pelo capuz rumo ao fundo da flor, em busca de néctar e do pólen. Nesse movimento contatam com o estigma estrategicamente posicionado no fundo da flor de modo a receber o pólen aderido na cabeça e tórax da abelha. Com isso ocorre a polinização e deposição de nova carga polínico para a mamangava levar para outra flor que visitar. 

 

Bônus – Caulifloria e Dispersão dos frutos

 

Caulifloria é quando as flores nascem direto no tronco ou nos ramos mais grossos, e não nas pontas dos galhos. É raro, ancestral e faz todo sentido ecológico.

No abricó-de-macaco (Couroupita guianensis), isso fica escancarado: o tronco vira palco. As flores surgem em inflorescências caulifloras, grandes, pesadas e muito perfumadas — impossível ignorar.

Por que a caulifloria existe?

Na realidade, é estratégia pura:

  • Facilita o acesso de polinizadores grandes (abelhas robustas como Xylocopa, morcegos, até mamíferos em outras espécies).

  • Aguenta peso e impacto: flores grandes e frutos volumosos ficam mais seguros no tronco do que em galhos finos.

  • Comunicação direta: odor e recursos ficam concentrados num ponto fácil de localizar.

É arquitetura vegetal a serviço da reprodução.

A caulifloria ocorre comumente em espécies de florestas tropicais antigas, onde luz, espaço e interação com animais moldaram  esse tipo de solução. Exemplo: jabuticaba, cacau, cupuaçu e o próprio abricó-de-macaco seguem essa lógica — cada um com seus parceiros ecológicos.

Dispersão

Os frutos do abricó de macaco são lenhosos, globosos, grandes e pesados. A dispersão ocorre principalmente por meio de uma combinação de barocoria (queda pela própria gravidade) e zoocoria (dispersão por animais), sendo frequentemente associada a primatas e outros mamíferos. 

 
frutos de abricó-de-macaco
frutos de abricó-de-macaco
Aqui estão os detalhes do mecanismo de dispersão:
  • Queda e Abertura (Barocoria): Os frutos pesam entre 3 kg e 7 kg. Quando maduros, caem da árvore de uma altura considerável (pode chegar a 15-35 metros), chocando-se contra o solo com grande impacto. Esse impacto geralmente quebra a casca dura, expondo a polpa fétida e as sementes contidas no interior.
  • Dispersão por Animais (Zoocoria): Uma vez que o fruto se abre no chão, animais como macacos (o que dá nome à árvore), porcos-do-mato e pacas são atraídos pela polpa carnuda e consomem as sementes, atuando como dispersores.
  • Mecanismo de Proteção: As sementes têm pelos, que podem protegê-las durante a passagem pelo trato digestivo dos animais.
  • Dispersão Primária x Secundária: A queda do fruto é considerada a dispersão primária (barocoria), enquanto a remoção das sementes pelos animais é a dispersão secundária, que espalha as sementes para longe da árvore-mãe.
Devido ao seu tamanho e à necessidade de quebrar a casca, a dispersão é adaptada para grandes mamíferos.
 

Atenção – 🔺

 

Não é aconselhável para plantio em áreas urbanas. Não há os dispersores naturais, os frutos caem e podem machucar pessoas, causar prejuízos patrimoniais.  Além disso, os frutos no chão apodrecem, causando mal cheiro e atraindo insetos e microorganismos decompositores, o que também não é bom para a saúde pública.

 

🌼 Gostou de entender como a flor do abricó-de-macaco se relaciona com os seus polinizadores? Aqui no Portal você sempre encontrará ciência traduzida.

Sugiro que seu próximo post seja da flor das bromélias, também cheias de truques para envolver seus polizadores. Na natureza encontramos relações belíssimas e farei o meu melhor para mostrar a você.

Veja o post aqui https://quempoliniza.blog/serie-bromelias-e-seus-polinizadores/ 

 
 

SAIBA MAIS


BRITO, V.L.G. et al. 2010. Sophora tomentosa e Crotalaria vitellina (Fabaceae): biologia reprodutiva e interações com abelhas na restinga de Ubatuba, São Paulo.  Biota Neotropica, 10(1): 185–192.

MARCHI, P.; ALVES-DOS-SANTOS, I. 2013. As abelhas do gênero Xylocopa Latreille (Xylocopini, Apidae) do Estado de São Paulo, Brasil. Biota Neotropica, 13(2): 249–269.

MORI, A.S. Biologia da polinização em Lecythidaceae. 1987
Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-33061987000300012

ORMOD, W.T.; PINHEIRO, M.C.; DE CASTELLS, A.R.C.A. 1981. Contribution to the floral biology and reproductive system of Couroupita guianensis (Lecythidaceae). Annals of the Missouri Botanical Garden, 68: 514–523.

Crédito de imagem (uso educativo):
https://www.flickr.com/photos/129920114@N06/16094793348/

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