Flores Fátuas

Flores Sem Identidade

NA imagem vemos uma flor refletindo sua imagem no espelho. A da esquerda é uma flor adulterada pela tecnologia e a da direita como é na natureza, com uma abelha visitando

 

Uma flor existe, evolutivamente, por um motivo muito claro: reprodução.

Ela produz pólen, néctar, odores e cores para atrair polinizadores. É uma estrutura ecológica sofisticada que sustenta redes inteiras de vida.

O que é uma flor

Uma flor não existe apenas para ser bonita. Muito menos evoluiu para nos servir.

Ela é o órgão reprodutor das plantas com flores, chamadas de Angiospermas.

As flores são altamente especializadas e surgiram no planeta há cerca de 140 milhões de anos. O Homo sapiens surgiu há aproximadamente 300 mil anos.

Em outras palavras:
quando o ser humano apareceu, as flores já haviam evoluído e se diversificado por mais de 139 milhões de anos.

Na botânica clássica, a flor monóclina ou hermafrodita, é formada por partes que chamamos de verticilos , assim organizados:

  • cálice
  • corola
  • androceu (estames produtores de pólen – que encerra o gameta masculino)
  • gineceu (estrutura feminina, que apresenta no interior do ovário o gameta feminino)

    Essa organização é resultado de milhões de anos de coevolução com polinizadores.

    Cada parte tem função clara:

    • cor → atração

    • odor → comunicação química

    • pólen → alimento e gameta

    • néctar → recompensa energética

esquema de partes de uma flor
partes de uma flor: parte feminina formada pelo ovário, estilete e estigma. Parte masculina formada pelas anteras e filetes (filamentos).

O que faz o mercado de flores ornamentais

Hoje vi uma reportagem na TV celebrando uma novidade da floricultura ornamental: lírios sem pólen.

A justificativa do apresentador foi simples: “aquele pozinho” que mancha sua roupa, seus móveis e a toalha das mesas foi removido. E muitas pessoas disseram que gostaram da ideia. Até aí, tudo bem, porque o problema não é a preferência estética das pessoas.

O problema é o que isso revela sobre nossa relação com as flores.

Continuando sobre a notícia da TV, a solução encontrada pela indústria foi amputar justamente aquilo que define biologicamente uma flor: seus órgãos reprodutivos.

Para o mercado, isso é inovação. Para a biologia, é mutilação. Para a ecologia é desnaturalização.

Além do que, vale lembrar, que o pólen que suja a toalha da mesa de jantar é o pólen que põe comida nessa mesa.

A ESTÉTICA  COMO ALVO

Nos programas de melhoramento, o alvo principal costuma ser a estética.

E isso, frequentemente, mexe justamente nos verticilos reprodutivos.

🌸 Transformação de estames em pétalas

Muito comum em flores chamadas “dobradas”.

O que acontece:

  • estames (androceu) viram pétalas extras (homeose floral — transformação de um verticilo em outro. Isso acontece por alteração de genes reguladores do desenvolvimento floral).

  • aumenta o volume da corola

  • a flor fica mais vistosa

Mas ecologicamente:

  • elimina a produção de pólen

  • pode bloquear acesso ao néctar

Resultado: menos recurso para polinizadores.

lírio chamado de lírio dobrado, sem estames. Transformados em pétalas
Lírio dobrado – estames modificados em pétalas

🌺 Alteração de pigmentos

Melhoramento também altera antocianinas e flavonoides.

Isso gera:

  • novas cores

  • padrões visuais intensificados, hipersaturados

  • flores muito diferentes das originais

Para humanos isso é atraente.

Mas polinizadores percebem outro espectro, incluindo UV.

Às vezes o melhoramento elimina guias de néctar importantes. Os polinizadores não identificam mais sua fonte de alimento.

 

rosas hipercoloridas, artificialmente por meio de melhoramento genético e outras tecnologias
Rosas produzidas por melhoramento e outras tecnologias. Parecem de IA. Mas são reais, expostas em feiras.

🌷 Perfume artificial, atenuado ou eliminado

O aroma floral é composto por misturas complexas de:

  • terpenos

  • benzenoides

  • fenóis

No melhoramento ornamental, o cheiro pode ser:

  • reduzido

  • eliminado

  • substituído por fragrâncias mais agradáveis ao mercado.

Mas o odor é um dos principais sinais para polinizadores. E cada animal responde a um odor específico.  Muitos insetos encontram flores primeiro pelo cheiro. Que é o caso das abelhas, besouros, das moscas, mariposas e morcegos.

Esses sinais foram refinados ao longo de milhões de anos de coevolução entre plantas e animais. O ser humano nem existia ainda.

Quando programas de melhoramento anunciam variedades com aroma mais suave, e até sem perfume, estamos interferindo justamente nesse sistema de comunicação biológica!

🐝 Consequência ecológica

Quando mexemos em:

  • cor

  • odor

  • verticilos reprodutivos

estamos mexendo diretamente no sistema de comunicação planta–polinizador.

A flor continua bonita.

Mas deixa de funcionar plenamente como unidade ecológica de reprodução e alimentação. Deixa de cumprir sua função evolutiva.

O pólen não é sujeira!

anteras de lírios com pólen
Anteras de lírio com pólen

Para as muitas espécies de abelhas, o pólen é a principal fonte de proteínas, lipídios, vitaminas e minerais, essenciais para o desenvolvimento das glândulas hipofaríngeas, produção de geleia real e nutrição das larvas.

 

dois grãos de pólen visualizados em ultramicroscópio. Do lírio.
Grãos de pólen do lírio ao microscópio. As manchas internas são núcleos. Um é o gameta masculino.

O grão de pólen, em média, é composto por 21% de proteínas, 54% de carboidratos, 5% de lipídios e rico em aminoácidos, atuando como um “superalimento” para a colmeia.Ele alimenta larvas, sustenta colônias e faz parte de redes ecológicas complexas.

Quando flores são mutiladas e retirado dela os estames, o que desaparece não é apenas  o “pozinho amarelo”.

Desaparece um recurso alimentar essencial para polinizadores e os seus gametas! Ela não se reproduz mais!

Sobre risco ambiental

Em alguns casos, a esterilidade pode reduzir riscos de invasão biológica. E são pensadas para evitar isso. Por outro lado, levanta uma questão ecológica pouco discutida: a redução perigosa de recursos para polinizadores em paisagens urbanas dominadas por cultivares ornamentais.

No caso de se manter o cultivar fértil, outra discussão escala para a perda de polinizadores, que não respondem mais à dinâmica da  atratividade que vem acontecendo há milhões de anos. E essa possibilidade é devastadora.

Contextualização do que importa (ou pelo menos, deveria)

O filósofo Arne Næss, criador da Deep Ecology, 1973, defendia que a natureza possui valor intrínseco, independentemente da utilidade que possa ter para os seres humanos.

A bióloga evolutiva Lynn Margulis, 1981, demonstrou que a vida na Terra se organiza em redes de cooperação entre organismos, e não em entidades isoladas, ou alavancadas por competição – discordando até de Darwin.

O físico e pensador sistêmico Fritjof Capra, 1996, mostrou que os sistemas vivos funcionam como teias de relações interdependentes.

E muito antes deles, o naturalista Henry David Thoreau, 1854,  já alertava que, ao nos afastarmos da experiência direta com a natureza, perdemos algo essencial da nossa própria percepção do mundo.

Assim, quando passamos a olhar para uma flor apenas como algo que não deve sujar a toalha da mesa, talvez não seja a flor que tenha perdido sua identidade.

Fomos nós.

Uma lembrança cultural

Enquanto escrevia este texto, me lembrei de uma música de Erasmo Carlos chamada Panorama Ecológico, 1978.

Ela começa dizendo:

Lá vem a temporada das flores, trazendo begônias aflitas, petúnias cansadas…”

Muita gente que nasceu depois dos anos 2000 talvez nunca tenha ouvido essa música.

Mas impressiona como ela continua atual.

Deixo aqui o link para quem quiser ouvir. Erasmo Carlos “Panoramo Ecológico”

A reflexão final

Certamente o problema não está nos seres que evoluíram milhões de anos antes de nós.

Não está no pólen que suja a toalha, nem no cravo que lembra nossos velórios.

Está, na minha visão, no paradigma da criação, onde o ser humano é o centro absoluto para o qual tudo existe.

Só que a Verdade Inconveniente — ainda mais inconveniente do que aquela popularizada por Al Gore sobre o aquecimento global — é que somos parte de um tecido delicadamente tramado com toda a vida no planeta. Nessa teia, nesse tecido vivo, nenhuma espécie é mais especial do que a outra e todas têm iguais direitos de se reproduzir e se perpetuar.

O problema está, então e definitivamente, do lado de cá.

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