Amnésia ecológica nas cidades e a perda de biodiversidade urbana

A amnésia ecológica geracional

e o deslocamento da linha de base nas paisagens urbanas

 

Você se lembra de ver vagalumes nas noites de verão?
Ou de quintais com caramboleiras, ameixeiras e goiabeiras, onde abelhas e pássaros eram presença constante?

nessa imagem vemos crianças de pé no chão, em meio a árvores frutíferas se encantando com muitos vagalumes, a noitinha

Quem cresceu em cidades brasileiras algumas décadas atrás, talvez se lembre de algo que hoje parece cada vez mais raro: ruas com mais árvores, mais insetos e muito mais canto de pássaros, de grilos e cigarras. Quintais com flores visitadas por abelhas, alface fresquinha à mesa e galinhas cacarejando sobre seus ovos.

vilarejo mostrando casinhas, mulher dando milho para galinhas e animais nas ruas de terra

Hoje, muitas dessas lembranças parecem exagero ou nostalgia.

Mas talvez não sejam.

A cidade e a natureza: uma separação histórica

Durante muito tempo, a própria ideia de cidade foi construída em oposição à natureza.

A cidade era entendida como um aglomerado humano organizado por regras sociais, leis e instituições — um espaço dedicado à vida econômica, política e social.

A natureza ficava do lado de fora. Era algo que existia além das ruas e construções urbanas.

Não por acaso, durante séculos, o contato com a natureza era buscado fora da cidade. As pessoas caminhavam, descansavam ou faziam piqueniques nos parques e campos que existiam nos arredores urbanos.

A natureza era vista como lugar de lazer ou contemplação. Não como parte integrante da vida urbana.

A contradição da cidade biodiversa

 

Apesar desse imaginário de separação – até mesmo conceitual – a vida cotidiana urbana era muito menos rígida do que o conceito sugeria. Nas cidades e vilarejos, a natureza ainda estava presente. Casas tinham quintais arborizados. As praças eram sombreadas por árvores. Havia hortas domésticas e frutíferas nos fundos das casas. Os animais circulavam entre jardins e quintais.

Todos esses espaços permitiam algo essencial para a vida: o fluxo de organismos.

Pássaros se alimentavam de frutos e, com isso, dispersavam suas sementes.
Insetos circulavam entre jardins e flores eram polinizadas.
Sementes germinavam e novas plantas se desenvolviam.

Mesmo sem planejamento ecológico formal, a cidade funcionava como um mosaico vivo de interações ecológicas.

Quando a separação se tornou real

cidade verticalizada, repleta de carros, arranha-céus

Essa relação começou a mudar de forma profunda ao longo do século XX e nesse início do XXI.

A industrialização e, mais tarde, a verticalização das cidades transformaram radicalmente a estrutura da paisagem urbana.

Casas com quintais foram substituídas por edifícios.
Jardins deram lugar a estacionamentos.
Áreas permeáveis foram cobertas por concreto e asfalto.

A separação entre cidade e natureza, que antes era sobretudo um ideário cultural, começou a se tornar uma realidade física.

Com isso, muitos dos fluxos biológicos que atravessavam as cidades começaram a se romper.

Insetos polinizadores perderam habitats.
Aves perderam áreas de alimentação.
Plantas deixaram de encontrar espaços para crescer.

O resultado foi um empobrecimento progressivo das paisagens urbanas.

A linha de base que se desloca

 

uma mão humana se soltando de uma árvore

Em 1995, o biólogo marinho Daniel Pauly descreveu um fenômeno que chamou de Síndrome da Linha de Base Deslocada (Shifting Baseline Syndrome). A ideia é inquietante. Basicamente, ela se ancora ao fato de que cada geração considera como normal o estado da natureza que encontra quando nasce — mesmo que esse estado já esteja profundamente degradado. Então, a sua linha de referência ecológica vai se deslocando lentamente ao longo do tempo, sem que se perceba.

Não precisamos voltar muito no tempo…

 

Para compreender esse fenômeno, não é necessário voltar séculos na história.

Basta olhar duas gerações para trás!

Muitos dos nossos avós, até mesmo nossos pais se você for 50+, viveram em cidades onde os quintais eram comuns. As casas tinham árvores frutíferas nos quintais, flores nos jardins, nas varandas e as praças mantinham uma vegetação mais diversificada. Caramboleiras, ameixeiras, goiabeiras e pitangueiras faziam parte do cotidiano. Havia hortas nos fundos das casas e animais eram ali criados. Hoje, uma geração depois, em inúmeras cidades, essas paisagens desapareceram ou diminuiram bastante.

O novo normal

Assim, cada nova geração cresce em paisagens cada vez mais empobrecidas e aquilo que é perda passa a parecer apenas o modo natural de funcionamento das cidades.

As crianças de hoje não conhecem vagalumes. Não sentem falta, até porque nunca viram. E você já deve estar buscando na memória quando foi a última vez que viu uma caramboleira… um vagalume.. um canto de cigarra.

O perigo do esquecimento

Talvez o fenômeno descrito por Daniel Pauly não seja apenas uma curiosidade da ecologia. Ele revela um dos grandes desafios culturais do nosso tempo: não apenas perder biodiversidade, mas esquecer que ela já foi muito mais rica — e normalizar cidades cada vez mais pobres em árvores, animais e insetos polinizadores. Nesse processo, empobrecem não apenas as paisagens que habitamos, mas também a própria experiência humana de viver entre outras formas de vida.

Uma reflexão final

Parafraseando Friedrich Nietzsche, aquilo que contemplamos por muito tempo acaba também nos transformando. Quando convivemos por muito tempo com paisagens empobrecidas, corremos o risco de considerar esse empobrecimento como natural.

Talvez as paisagens empobrecidas que hoje nos cercam sejam o reflexo do nosso próprio empobrecimento.

Contraste entre cidade antiga com quintais e biodiversidade e cidade moderna verticalizada com neon e concreto — conceito de amnésia ecológica geracional. imagem cortada ao meio. do lado esquerdo uma vida ligada à natureza, em preto e branco e do direito uma cidade repleta de luz artifical e banners coloridos
Duas gerações separaram paisagens urbanas radicalmente diferentes

Referência

Pauly, D. Anecdotes and the shifting baseline syndrome of fisheries. 1995.

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