Ipê-Amarelo – Handroanthus chrysotrichus (Mart. ex DC.) Mattos
Família Bignoniaceae

Quando o ipê-amarelo floresce, o local todo parece acender — um brilho dourado que irrompe no auge da estação seca e lembra que a natureza tem seus próprios fogos de artifício.
Por que Tabebuia virou Handroanthus?
Durante muito tempo, os ipês foram conhecidos cientificamente pelo gênero Tabebuia — nome que acabou extrapolando os livros e passou a fazer parte da cultura urbana, dando origem a nomes de ruas, alamedas, condomínios e bairros, como por ex. “Alameda Tabebuia”.
No entanto, acho interessante pontuar nesse post o por que dessa alteração de nome. De tempos em tempos, especialistas em taxonomia vegetal realizam revisões na nomenclatura botânica. No caso do ipê, essa revisão foi conduzida pelo botânico brasileiro João Rodrigues de Mattos. Ele demonstrou que os ipês tradicionalmente agrupados dentro do gênero Tabebuia, não formavam um conjunto homogêneo em termos de morfologia das folhas, do tronco, flores e origem filogenética. Então, Mattos propôs a criação de um novo gênero, Handroanthus, que passou a incluir, principalmente, os ipês de madeira mais densa e, em geral, de flores amarelas. Estudos moleculares posteriores confirmaram essa distinção, consolidando o uso atual do nome Handroanthus na Botânica. No entanto, algumas espécies de troncos menos robustos permaneceram no gênero Tabebuia, o que não é o caso do ipê amarelo.
Embora o nome Tabebuia continue presente na memória coletiva e no espaço urbano, o uso de Handroanthus reflete o conhecimento científico atualizado — uma lembrança de que a ciência evolui, mesmo quando os nomes nas placas permanecem.
Ipê-amarelo: a flor símbolo do Brasil

Nossa flor símbolo do Brasil desde 1961, foi designada pelo então presidente Jânio Quadros, que declarou o ipê-amarelo (Tabebuia vellosoi) como a Flor Nacional.
Sem dúvida, é uma das árvores mais queridas e admiradas do país. Sua floração exuberante em amarelo-ouro, geralmente sem folhas, cobre cidades, estradas e paisagens naturais em todas as regiões do Brasil, criando um espetáculo que ninguém ignora.
De onde vem a palavra IPÊ – Segundo registros etimológicos, a palavra ipê tem origem no tupi, significando “árvore de casca grossa” — uma descrição precisa tanto do tronco quanto a resistência da madeira.

Uso histórico e importância econômica
A madeira do ipê sempre foi muito valorizada por sua alta durabilidade e resistência.Foi amplamente utilizada na construção civil e naval, e há registros de que, entre os séculos XVII e XVIII, era empregada inclusive na estrutura e nos telhados de igrejas coloniais.
RESTRIÇÃO DE USO PELA LEI AMBIENTAL BRASILEIRA – Ao longo do tempo, a intensa exploração da madeira de ipê levou à redução significativa das populações naturais. Como consequência, atualmente diversas espécies de ipê (Handroanthus spp.) encontram-se protegidas pela legislação ambiental brasileira e por acordos internacionais, que restringem severamente o corte, o transporte e o comércio da madeira. Hoje, o ipê deixa de ser uma espécie de interesse econômico madeireiro para assumir um papel prioritário na conservação da biodiversidade, no reflorestamento e no paisagismo ecológico, sendo valorizado muito mais em pé – vivo! – do que transformado em madeira morta.
“O valor do ipê, hoje, está menos no que se extrai dele e mais no que ele sustenta vivo”

Floração e clima: estratégia perfeita
A floração do ipê-amarelo ocorre, em geral, entre julho e setembro.
Um detalhe curioso — e ecológico — é que quanto mais seco e frio estiver o período, mais intensa tende a ser a florada!
E não é por acaso: florescer na estação seca significa menos competição por polinizadores e maior eficiência reprodutiva. Isso porque geralmente grande parte das espécies se “recolhem” diante do clima seco, não florescem, algumas “hibernam”. Então é um fator favorável que a espécie do Ipê conquistou pela evolução.
🐝 Visitantes florais e polinização
Agora chegamos a alma do Portal Quem Poliniza. Falar deles, dos polinizadores! Vamos lá.
Como outros ipês, suas flores atraem uma grande diversidade de visitantes florais.
Abelhas e beija-flores estão entre os visitantes mais frequentes. E por isso, com frequência, lemos ou assistimos em vídeos no YouTube que a espécie é polinizada por beija-flores ou borboletas. Só que não!
Os principais polinizadores efetivos são as mamangavas, especialmente Bombus morio.

Essas abelhas são: grandes, robustas, bem pilosas (peludas), de coloração predominantemente preta.
Mamangavas são reconhecidas como polinizadoras-chave tanto de espécies florestais quanto agrícolas e ocorrem principalmente em áreas florestais do Brasil. Se alimentam de recursos florais, néctar, pólen, resinas, óleos. Farei um post sobre essas grandes polinizadoras.
Um detalhe fascinante: guias de néctar

Se você observar as flores com atenção, em várias delas você notará marcas, pontos, listas, riscos de cores contrastantes com a da corola. São os guias-de-néctar.
No caso do ipê amarelo, você verá listas avermelhadas na parte interna do tubo da corola.
Essas estruturas são guias-de-néctar das flores do ipê, sinalizando às mamangavas o sentido a percorrer para a obtenção do néctar.
- Essa minha linguagem finalista é para ser didática. Na realidade, todas essas manifestações de aprendizagem mútua entre plantas-animais são fruto de Coevolução entre essas espécies, durante centenas de milhares de anos. Em outro momento veremos isso de forma mais clara.
Os guias, então, funcionam como sinais visuais, orientando os polinizadores:
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indicam a presença de néctar
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mostram o caminho correto até o recurso
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aumentam a eficiência da polinização
Relembrando, há muitas espécies vegetais que apresentam esse tipo de adaptação.
👉 Vou postar outras flores com guias de néctar e falar mais sobre esse tema em breve. Aguarde.
Paisagismo e reflorestamento

Além de seu papel ecológico, o ipê-amarelo é muito valorizado no paisagismo urbano e em projetos de reflorestamento, tanto pela beleza quanto por seu papel no suporte aos polinizadores em períodos críticos do ano. Mas nem tudo são flores.
Apesar de ser muito usado na arborização urbana, o ipê-amarelo tem desafios:
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Crescimento relativamente lento
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Raízes que precisam de espaço
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Não tolera podas mal feitas
👉 Em contrapartida, é um dos maiores provedores de recurso floral urbano em períodos críticos, ajudando a sustentar populações de abelhas na cidade. Além disso conecta fragmentos florestais dos arredores via fluxo dos polinizadores. Na Educação, o ipê ensina pelo impacto visual, aproxima as pessoas da natureza e valoriza o local onde cresce.
Às vezes, uma árvore ensinando em silêncio vale mais que mil palestras.
É uma árvore que educa, encanta e sustenta a vida, tudo ao mesmo tempo.
Saiba mais
CARVALHO, P.E.R. Espécies arbóreas brasileiras. Embrapa Florestas. v.1. 2003
Universidade Estadual do Centro-Oeste – Manejo Florestal
ESALQ/USP – Trilhas da Biodiversidade


