Jacaranda-mimoso (Jacaranda mimosifolia D.Don.): beleza urbana, botânica refinada e polinização dependente de abelhas grandes

Quando o jacaranda-mimoso floresce, a cidade muda de ritmo. O chão se cobre de lilás, o olhar desacelera e, silenciosamente, uma complexa rede ecológica entra em ação. Por trás da beleza ornamental dessa espécie muito usada na arborização e paisagismo, existe uma flor sofisticada, estratégias reprodutivas precisas e uma forte dependência de polinizadores.
Origem e posição botânica
O jacaranda-mimoso é nativo da América do Sul, com ocorrência natural principalmente na Argentina, Bolívia e Paraguai. No Brasil, tornou-se uma das árvores ornamentais mais utilizadas na arborização urbana e paisagismo.
A árvore tem porte médio (chega a 15 m de altura), decídua. O caule é cinza-claro com fuste curto e tortuoso. A casca (ritidoma) é fina, que se desprende em pequenas placas. As raízes são profundas.
Pertence ao gênero Jacaranda, que reúne cerca de 49 espécies, todas conhecidas pelo nome popular de Caroba, inseridas na família Bignoniaceae — a mesma dos ipês. De acordo com a taxonomia botânica, esse grupo compartilha características morfológicas e fenológicas marcantes, especialmente relacionadas à floração exuberante e às estratégias de reprodução.
Fenologia: floração associada à perda de folhas
Assim como os ipês, o jacaranda-mimoso apresenta um padrão fenológico típico da família Bignoniaceae:
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É decíduo a semidecíduo, perdendo total ou parcialmente as folhas no inverno
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A floração ocorre no final do inverno e início da primavera, muitas vezes quando a copa ainda está pobre em folhas
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A brotação foliar intensifica-se após o início da floração
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Os frutos lenhosos contendo sementes aladas surgem após esse período e podem permanecer na árvore por vários meses
Essa estratégia torna as flores mais visíveis e acessíveis aos polinizadores, além de representar economia energética para a planta durante os meses mais frios.

🌸 Biologia floral: nada é aleatório
As flores do jacaranda-mimoso são grandes, tubulares, em forma de trombeta, suavemente perfumadas, com coloração que varia do azul profundo ao violeta. Estão organizadas em inflorescências com cerca de 50 a 60 flores, das quais 4 a 8 se abrem simultaneamente.
São flores diurnas, abrindo-se durante o dia — um detalhe fundamental para entender quem são seus polinizadores.

Estrutura floral
- flores com 5 pétalas fundidas formando um tubo parecido com trombeta. Se dispõem em inflorescências terminais, com cores variando do roxo-intenso ao lilás.
- Androceu: 4 estames férteis (em dois pares desiguais) + 1 estaminódio (estame estéril, menor do que os estames férteis).
- O estaminódio apresenta osmóforos, estruturas responsáveis pela liberação de odor, atuando como atrativo químico.
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Néctar é o principal recurso floral oferecido, produzido em nectário próximo ao ovário da flor. A concentração de açúcares varia de 12 a 20%, adequada para abelhas de grande porte.
🚫 Como a flor evita a autopolinização
O jacaranda-mimoso apresenta um conjunto de estratégias anti-autopolinização, bastante eficientes:
🔹 Separação espacial das estruturas masculinas da feminina (hercogamia)
O estigma encontra-se afastado das anteras dentro do tubo da corola, reduzindo a chance do pólen cair na porção estigmática da própria flor,
🔹 Separação no tempo de amadurecimento dos gametas
Há indícios de protandria, ou seja, o pólen é liberado antes de o estigma estar ativado. Assim, quando o estigma ficar receptivo, grande parte do pólen da própria flor já foi removida pelos visitantes.
🔹 Autoincompatibilidade
Mesmo que o pólen da própria flor alcance o estigma, não ocorre a fecundação, porque existe uma barreira genética que impede a formação de frutos por autopolinização, forçando, assim, a polinização cruzada. Necessário haver polinizador!
👉 Em resumo: sem polinizadores, não há formação de frutos e sementes.
Quem poliniza o jacaranda-mimoso?

Diversos animais visitam as, como abelhas, vespas e aves. No entanto, os polinizadores efetivos são as abelhas grandes, capazes de acessar com voracidade o interior da flor e tocar anteras e estigma, realizando eficientemente a polinização.
As principais espécies registradas são:
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Mamangavas (Bombus morio)
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Abelhas carpinteiras (Xylocopa sp.)
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Eulaema nigrita
Essas abelhas são comuns tanto em áreas naturais quanto em ambientes urbanos, onde garantem o fluxo gênico entre árvores isoladas na paisagem da cidade.

Para o olhar leigo, podem parecer apenas “abelhas grandes e pretas”. Para a ecologia da polinização, são agentes essenciais para a reprodução vegetal e manutenção da biodiversidade.
Uma parceria antiga, agora urbana
O jacarandá-mimoso sustenta essas abelhas com néctar e pólen.
As abelhas, por sua vez, garantem a reprodução da espécie, inclusive em ruas, praças, parques e jardins.
Quando entendemos isso, o jacaranda-mimoso deixa de ser apenas uma árvore paisagística urbana e passa a ser reconhecido como parte viva da infraestrutura ecológica da cidade.
Como é bom entender isso, não é?
SAIBA MAIS
Alves, G. R.; Peruchi, A.; Agostini, K.
Polinização em área urbana: o estudo de caso de Jacaranda mimosifolia D. Don (Bignoniaceae).
2010. Bioikos, Campinas, 24(1): 31–41.
Freiberg, J. A. et al.
Comportamento fenológico das espécies Jacaranda mimosifolia D. Don e Ligustrum lucidum W. T. Aiton na arborização urbana.
2022.
Lorenzi, H.
Jacarandás – gênero Jacaranda (Bignoniaceae).
Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ta0SuNFppKE
ATENÇÃO – caso você não esteja familiarizada ou familiarizado com os termos que usei aqui para denominar as diferentes partes da flor, te recomendo ler o post abaixo, onde explico o que é flor, o que é polinização, as partes florais e para que servem.
https://quempoliniza.blog/afinal-o-que-e-polinizacao-e-por-que-ela-importa-tanto-para-nos/

