CONSERVAÇÃO DOS POLINIZADORES

A perda de polinizadores sempre foi tratada como um problema ecológico. E está certo. É ecológico. Mas não só. Vamos conversar sobre, agora.
Esse é um daqueles assuntos que ficavam mais dentro da biologia, da área conservacionista. Hoje, a conversa aparece em outro lugar: na produção de alimentos, na economia, nas decisões que afetam cadeias produtivas inteiras.
Outro dia me deparei com um texto do Jeff Ollerton exatamente sobre isso, sobre a perda de polinizadores não só como um problema ecológico, mas como algo que já está entrando nas discussões sobre economia, regulação e risco.
E faz sentido.

Você sabia que grande parte das culturas agrícolas depende da polinização animal?
Em outras palavras, grande parte, mas grande mesmo! dos itens na nossa mesa foram produzidos pela polinização feita por animais.
Frutas, café, oleaginosas, grãos… tudo isso passa, no primeiro momento, pelo trabalho de insetos, aves, morcegos.
E quando esse processo fica menos eficiente, ou é rompido, o impacto aparece. Comida some da mesa.
E daí lemos com frequência sobre a necessidade de conservar os polinizadores. Bandeiras de “Salvem as Abelhas” são projetadas em um número incalculável de pôsteres, banners, postagens. Tudo bem, está correto. Mas tem um ponto que quase nunca é dito de forma direta: os polinizadores não estão na lavoura.
Eles vêm de fora.
De áreas naturais, fragmentos de vegetação, florestas biodiversas… lugares que oferecem abrigo e alimento ao longo do ano.

É ali que as populações de abelhas, borboletas, pássaros, morcegos, vespas, besouros e mariposas se mantêm.
Quando essas áreas florestais desaparecem, a lavoura continua lá. Verde. Cheia de flores. Mas não frutifica. Toda a energia da planta demandada para a reprodução, se perde, não se converte em frutos e sementes.
E isso passa despercebido, porque à primeira vista parece que está tudo funcionando. Talvez esse seja um dos maiores equívocos: imaginar que a produção agrícola funciona isolada, como se bastasse plantar.
Na prática, ela depende de um entorno vivo, diverso, funcional. Depende de uma floresta biodiversa, ativa, plena.
Sem essa conexão, o sistema agrícola se perde. Cai a produtividade, aumentam-se os custos para o agronegócio, a instabilidade cresce, alimento encarece e outros somem.
E aí o problema deixa de ser apenas ecológico. Passa a ser produtivo, econômico… e, no fim, alimentar.
Não é uma causa única. É um conjunto de processos que se conectam mas com clara direção: o entorno florestal tem de ser preservado. Enquanto o uso da terra e perda de habitats naturais aumentarem, as abelhas e os outros polinizadores estarão sob risco. E nossa segurança alimentar também.
No fim, é algo bastante básico:
- Sem floresta, não tem polinizador.
- Sem polinizador, não tem comida.
SAIBA MAIS
Ollerton, J. (2026). Pollinator decline: a global issue with social, legal, and economic implications.
https://doi.org/10.1093/9780198972877.003.0080
Relatórios da IPBES e iniciativas como a TNFD mostram como a biodiversidade já está sendo tratada como risco econômico e financeiro.


